O Dia Que Se Fez Noite, por Luisa Neves Soares (Texto/Edição) e Pedro Sousa Raposo (Fotografia)

 

Seria mais um fim de semana no interior de Portugal. Havia quem estivesse por poucos dias e os que sempre ali estiveram. Para todos, aquela tarde de sábado seria um ponto de não retorno. Agora tudo mudou.

A 17 de Junho de 2017, um incêndio que parecia ser apenas mais um, no quotidiano de um país demasiado acostumado a arder, transformou-se em algo com uma dimensão assustadora. Nessa noite começaram a chegar as primeiras notícias. Havia mortos, feridos e desaparecidos, num número que subia de hora para hora. No terreno, tentava-se travar a tragédia e o fogo, numa luta difícil que demorou 5 dias. Na primeira noite, a força das chamas fechou acessos e travou meios, auxílio, e informação. A escuridão estava iluminada por uma montanha em chamas. Ao amanhecer o fumo tomou conta da paisagem, deixando entrever silhuetas negras e esquálidas alinhadas num manto de cinza fumegante. Para algumas das árvores a concentração de calor foi tão grande que sucumbiram, dobrando-se como plástico derretido. O cheiro a queimado é intenso e o silêncio apenas é interrompido pelas sirenes dos veículos de emergência. Muitas.

Depois de tudo ardido consegue-se finalmente passar para os lugares e aldeias cercados pelo fogo. Pessoas em choque, desorientadas, corpos que aparecem continuamente, carros e casas ardidas. A fuga e a desorientação do dia anterior conduziram 64 pessoas para a morte. A realidade e os relatos impressionam. Em relação ao fogo, todos referem o mesmo, que em poucos segundos um tornado trouxe o fogo, com uma intensidade e rapidez como nunca se tinha visto. E com o fogo veio o fumo, espesso e negro que transformou o dia em noite e precipitou muitos numa fuga sem saída. Famílias inteiras, crianças, idosos, todos perdidos numa escuridão de fogo, que o dia seguinte coloca à vista numa visão aterradora. Aldeias com poucas dezenas de habitantes perdem de uma vez 11 dos seus, novos, velhos ou filhos da terra.

Cesaltina Silva, da aldeia de Várzeas, perdeu-se nos dias e tenta fazer frente à realidade. Chora o destino dos seus vizinhos, preocupada também com os animais que deixaram. “Quem os estimará agora?”. A sua casa foi porto de abrigo para outras pessoas da aldeia que ali se refugiaram, quando o fogo chegou e consumiu as casas mais velhas. Quem dali fugiu, como muitos outros das aldeias vizinhas não chegou ao destino. Muitos deles ficaram na estrada 236-1, agora apelidada de estrada da morte, onde 47 pessoas morreram numa tentativa desesperada de fugir, embatendo umas nas outras com a visibilidade nula e ladeados por árvores que cobriam toda a estrada. O mesmo aconteceu em aldeias como Nodeirinho, onde nos acessos de saída da aldeia vários habitantes tentaram sem sucesso escapar. Quem ficou refugiou-se dentro de casa ou no tanque comunitário da aldeia. Ainda há  desaparecidos e há quem continue sem conseguir comunicar com os seus. A luz, a água e as comunicações ainda não funcionam ao quarto dia de fogo, cabos e canos arderam, e os bens alimentares guardados em arcas frigoríficas irão irremediavelmente estragar-se.

A revolta dos populares é grande. Se há locais onde houve ajuda e meios de combate ao fogo, noutros, ficaram entregues a si mesmos e sem saber o que fazer. Agora, depois do pior ter passado, continuam sozinhos, com comunicações insuficientes e sem qualquer fonte de energia elétrica. A água vem de minas privadas que garantem as necessidades.

Os funerais já começaram, à medida que os corpos forem sendo libertados do Instituto de Medicina Legal, num processo que se estima longo e doloroso.

As populações irão acabar por voltar às suas vidas da melhor forma que conseguirem, tentando ultrapassar traumas e obstáculos, como sempre fizeram. Resta saber se o resto também irá voltar ao mesmo, fazendo com que a falta de ordenamento do território florestal, a falta de leis claras sobre espécies e tipos de plantações permitidas, a falta de limpeza dos terrenos que não é resolvida, ou a proximidade da floresta dos perímetros habitacionais, voltem no futuro, impulsionados por um qualquer fenómeno climatérico intenso, a originar um desastre destas dimensões.

 

 

 

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Aurora Eiras, de 75 anos descreve uma “chuva de fogo” como nunca viu. Em vez de água, labaredas. Sozinha, na sua casa parcialmente ardida, encontra refúgio na fé e nos seus santos, que com ela habitam todas as divisões da casa.

Nodeirinho, uma aldeia com 30 habitantes perdeu 11. Em carros que se queimaram com gente dentro ou na estrada, numa fuga precipitada que deixou famílias desmembradas e um sentimento de revolta e impotência nos que ficaram.

A estrada 236-1 que liga Figueiró dos Vinhos a Castanheira de Pêra foi onde se concentrou o maior número de vítimas mortais. 47 pessoas tentaram em vão fugir de um fogo imenso que acabou por cercá-las numa estrada estreita rodeada por uma floresta densa, que numa pequena extensão engoliu pessoas e carros.

Em Nodeirinho, duas famílias juntaram-se abrigadas numa casa para tentar escapar ao fogo. Os carros ficaram abandonados à entrada da povoação, na berma da estrada, após o despiste. O fumo não permitia ver nada. Fugiram para uma casa e em conjunto aguardaram que o fogo queimasse tudo.

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